O guardião das ervas do Mercado Central
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Atualizado: há 17 horas
Em um dos lugares mais tradicionais de Porto Velho, entre aromas, sabores e histórias da Amazônia, existe uma barraca onde a sabedoria popular parece ter encontrado abrigo. Ali, para cada dor existe uma erva, um chá, um conselho , e sempre uma boa conversa.

Dizem que todo mercado antigo guarda personagens curiosos. No Mercado Central de Porto Velho, um deles atende atrás de um balcão simples, cercado por vidros, cascas, raízes e folhas cuidadosamente organizadas.
Ele é o seu Emanuel.
Localizado em frente ao complexo histórico da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, o Mercado Central acompanha a história da capital desde o início do século XX. Muito mais que um ponto de comércio, é um lugar onde a cultura amazônica continua viva. Entre cafés produzidos em Rondônia, açaí, castanhas, temperos e tantos outros sabores da região, quem passa por ali acaba encontrando um pouco da alma porto-velhense.
Mas basta caminhar por seus corredores para perceber que, além dos produtos, são as pessoas que tornam o mercado um lugar especial. Seu Emanuel é uma dessas figuras curiosas que ajudam a dar identidade ao lugar.
É difícil saber se ele vende ervas ou tranquilidade. Talvez os dois.
Na barraca dele há remédio para dor de cabeça, dor nas costas, dor nas tripas, insônia, má digestão, espinhela caída, cansaço e um sem-fim de males que a medicina popular aprendeu a tratar muito antes de qualquer bula.
O curioso é que ninguém pergunta apenas para comprar. Pergunta para ouvir a resposta.
— Seu Emanuel, o senhor tem remédio para isso?
Ele sorri, aponta um vidro, uma raiz ou uma garrafada e responde com a segurança de quem conhece o ofício há muitos anos.
Até que alguém, inevitavelmente, faz a pergunta que desperta a curiosidade de quem está por perto:
— E para chifre, tem remédio?
Seu Emanuel não responde de imediato. Faz uma pequena pausa, como quem avalia um caso dos mais delicados, e devolve a pergunta:
— Tá no começo?
Se a resposta for "sim", ele diz, com toda a convicção, que ainda há jeito.
Se já estiver adiantado...
Aí sorri de canto e recomenda um café bem forte, uma boa caminhada pelo Mercado Central e resignação, porque há coisas que nem as melhores ervas da Amazônia conseguem resolver.
Quem presencia a cena ri. E segue o passeio com a certeza de que lugares como o Mercado Central são feitos dessas pequenas histórias, desses encontros inesperados e dessas pessoas comuns que, sem perceber, acabam se tornando parte da memória afetiva da cidade.
No fim das contas, talvez o maior remédio que seu Emanuel ofereça nem esteja nos vidros ou nas garrafadas.
Talvez esteja na boa prosa, no acolhimento e na lembrança de que alguns dos melhores passeios são aqueles em que voltamos para casa levando, além de um chá ou um tempero, uma boa história para contar.


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