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Raunei Nascimento: o chef que ajudou Rondônia a descobrir o valor da própria cozinha

  • há 7 horas
  • 8 min de leitura

Durante muito tempo, a gastronomia considerada sofisticada em Rondônia buscou inspiração em outros lugares. Enquanto os cardápios exaltavam bacalhau, paella e receitas europeias, um cozinheiro de Porto Velho decidiu seguir o caminho contrário: voltar para casa. Três vezes indicado ao Prêmio Nacional Dólmã — considerado o "Oscar da Gastronomia Brasileira" —, Raunei Nascimento transformou peixes amazônicos, mandioca, tucupi, castanhas e lembranças da infância em uma cozinha autoral que hoje representa Rondônia dentro e fora do Estado.


Eye-level view of a group of people engaged in a lively discussion
Foto por ......

A revolução silenciosa


As grandes transformações da gastronomia raramente acontecem de forma barulhenta.


Não costumam nascer em congressos internacionais nem em cozinhas estreladas.


Quase sempre começam quando alguém faz uma pergunta simples.


No caso de Raunei Nascimento, a pergunta era inevitável.


Por que Rondônia precisava buscar sofisticação em ingredientes importados quando vivia cercada por uma das maiores riquezas gastronômicas do planeta?


Na época em que iniciou sua carreira, era comum encontrar nos restaurantes considerados refinados pratos inspirados na culinária europeia. Bacalhau, paella, massas e cortes nobres ocupavam o centro dos cardápios.


Enquanto isso, os peixes amazônicos, a mandioca, a banana, a farinha, a castanha e o tucupi permaneciam associados à comida cotidiana.


Era como se a Amazônia ainda não tivesse descoberto o valor da própria mesa.


Raunei decidiu mudar isso.


Não escreveu manifestos.


Não fez discursos.


Começou simplesmente a cozinhar.


O menino da chapa


A primeira cozinha de Raunei estava longe da alta gastronomia.


Era uma padaria.


Aos 14 anos, trabalhava como chapeiro, atendente e preparador de lanches. Aprendeu cedo que uma cozinha funciona antes da beleza dos pratos.


Funciona porque existe disciplina.


Organização.


Respeito ao cliente.


Naquele momento, jamais imaginava que um dia estaria entre chefs reconhecidos da gastronomia brasileira.


Mas aquelas primeiras experiências deixaram uma marca definitiva.


Foi ali que descobriu que cozinhar também era uma forma de cuidar das pessoas.


A cozinha apareceu pela porta do bar


Curiosamente, Raunei não entrou na gastronomia pela cozinha.


Entrou pelo balcão.


Já adulto, trabalhava como barman em um shopping de Porto Velho quando começou a observar atentamente os pratos que saíam da cozinha.


Queria entender como eram preparados.


Como os ingredientes se transformavam.


Como a técnica mudava completamente um alimento.


A curiosidade venceu.


Ingressou no Senac.


Era uma época em que a culinária oriental dominava as escolas de gastronomia brasileiras.


Estudou técnicas japonesas e tailandesas, conheceu novos ingredientes e aprendeu métodos que ampliaram sua visão sobre a profissão.


Mas, ao mesmo tempo em que conhecia cozinhas do mundo, uma inquietação crescia.


Por que os sabores amazônicos apareciam tão pouco nos restaurantes da própria Amazônia?


A parceria que mudou uma cozinha


Foi nesse momento que surgiu uma personagem fundamental em sua história.


A empresária Glória, responsável pela administração do restaurante onde Raunei trabalhava, compartilhava da mesma percepção.


Era preciso valorizar aquilo que Rondônia possuía de mais precioso.


Juntos, decidiram apostar na culinária regional.


A ideia parecia simples.


Na prática, era revolucionária.


Em vez de esconder os ingredientes amazônicos, resolveram colocá-los no centro da mesa.


Foi dessa parceria que nasceu a Dourada Amazônica.


O prato reunia peixe regional, tucupi, farofa de banana e purê de macaxeira.


Nada havia sido importado.


Tudo era Amazônia.


Pouco tempo depois veio outra criação que conquistaria clientes e críticos: o palito de pirarucu empanado no coco, servido com um delicado vinagrete de alho desenvolvido pelo próprio chef.


Hoje essas receitas parecem naturais.


Naquele momento, representavam uma nova forma de pensar a gastronomia de Rondônia.


Quando a cantora Fernanda Takai descobriu Porto Velho


A confirmação de que aquele caminho fazia sentido veio de onde menos se esperava.


Em uma edição da tradicional Revista Gula, artistas responderam a uma pergunta:


"Qual foi o prato inesquecível da sua vida?"


Enquanto alguns lembravam experiências gastronômicas em Portugal, na Itália ou na França, a cantora Fernanda Takai escolheu um restaurante de Porto Velho.


Ela descreveu um dourado servido com tucupi, farofa de banana e purê de macaxeira.


Não lembrava o nome do prato.


Mas nunca esqueceu o sabor.


Para Raunei, aquela declaração representou muito mais do que uma citação em uma revista.


Era a confirmação de que um prato amazônico podia emocionar tanto quanto qualquer experiência gastronômica internacional.


Vieram então reportagens na Revista Quatro Rodas, na revista de bordo da Gol e em outros veículos especializados.


As portas começaram a se abrir.


Três vezes entre os melhores do Brasil


O reconhecimento nacional ganhou um novo capítulo quando Raunei passou a figurar entre os nomes indicados ao Prêmio Nacional Dólmã, considerado a maior honraria da gastronomia brasileira e conhecido como o "Oscar da Gastronomia Brasileira".


Não aconteceu apenas uma vez.


Nem duas.


Foram três indicações.


Receber uma indicação ao Dólmã já significa estar entre os chefs que melhor representam a identidade gastronômica de seu estado.


Receber três indicações consecutivas é um feito reservado a poucos profissionais.


As estatuetas não vieram.


A escolha dos vencedores dependia da votação popular, e Raunei nunca fez das redes sociais sua principal vitrine.


Preferiu dedicar seu tempo à cozinha.


Mesmo assim, as indicações consolidaram seu nome entre os principais representantes da gastronomia amazônica contemporânea.


Mais importante do que qualquer prêmio, elas ajudaram a projetar a culinária de Rondônia para além das fronteiras da região.


E esse sempre foi seu maior objetivo.


Não cozinhar para ser famoso.


Mas cozinhar para que o Brasil descobrisse aquilo que Rondônia sempre teve à mesa.


Cozinhar também é lembrar


Há chefs que começam um prato pela técnica.


Raunei Nascimento começa pela memória.


É comum ouvi-lo dizer que gastronomia é, antes de tudo, memória afetiva. Não se trata de uma frase de efeito. É a maneira como constrói sua cozinha.


Foi exatamente esse pensamento que o acompanhou quando recebeu o convite para representar Rondônia na Mostra do Pirarucu, realizada em Brasília. A indicação partiu da empresária Glória, que acreditava no talento do chef e na força da culinária amazônica.


O desafio era criar um prato inédito tendo o pirarucu como protagonista.


Durante dias, Raunei testou possibilidades.


Nenhuma parecia traduzir aquilo que realmente queria dizer.


Até que resolveu voltar para a infância.


Lembrou da avó.


Lembrou da farinha de tapioca.


Das castanhas.


Da comida simples, feita sem pretensão, mas cheia de significado.


Foi dessa lembrança que nasceu o Pérola do Madeira.


Um pirarucu grelhado servido sobre um delicado creme de castanhas, acompanhado por pérolas de tapioca assada e castanhas amazônicas.


O nome homenageava o rio Madeira, testemunha silenciosa da história de Porto Velho.

Mais do que um prato, era uma homenagem à Amazônia.


Uma ligação que veio de Nova York


A repercussão da Mostra do Pirarucu foi maior do que Raunei imaginava.


Poucos meses depois, recebeu uma ligação inesperada.


Do outro lado da linha estava a jornalista gastronômica Roberta Malta Saldanha, referência nacional na área.


Ela havia experimentado o Pérola do Madeira durante o evento.


A proposta era um reconhecimento que qualquer cozinheiro gostaria de receber.


O prato havia sido escolhido para integrar um livro reunindo 150 receitas representativas da gastronomia brasileira, ao lado de chefs consagrados e de nomes conhecidos do grande público.


Raunei aceitou.


Mas fez um pedido.


Queria que a empresária Glória fosse reconhecida naquela conquista.


Sabia que a confiança dela, anos antes, havia sido decisiva para que a culinária amazônica encontrasse espaço naquele restaurante e, posteriormente, no restante do país.


Mais uma vez, preferiu dividir o mérito.


Quando um prato conta a história de uma família


Os concursos passaram a fazer parte de sua trajetória.


Mas talvez nenhum deles revele tão bem sua forma de cozinhar quanto o Receita de Sucesso, promovido pela revista AnaMaria.


Ali, Raunei percebeu que precisava apresentar mais do que uma boa receita.


Precisava contar uma história.


Criou então um prato onde cada ingrediente carregava uma lembrança.


A manga assada remetia aos dias em que ele e a avó comiam manga com sal.


O queijo coalho lembrava os domingos em família, quando o pai voltava da feira trazendo o alimento que logo era preparado na brasa.


Até as pérolas de tapioca nasceram de uma recordação.


Ainda menino, observava a avó tomando café enquanto mastigava farinha de tapioca. Achava impossível aquilo ser agradável.


Anos depois, aquela imagem transformou-se em técnica culinária.


A receita chegou à final nacional e passou a integrar o livro Jornada de Sabores, reunindo as dez melhores do concurso.


Para Raunei, era mais uma confirmação de que os melhores pratos não nascem apenas da criatividade.

Nascem das histórias que carregamos.


O palco mais difícil


Representar Rondônia em uma grande seletiva nacional ligada ao universo do MasterChef talvez tenha sido um dos momentos mais intensos de sua carreira.


Cinco minutos para escolher os ingredientes.


Cinquenta minutos para cozinhar.


Uma plateia observando cada movimento.


Jurados atentos.


E concorrentes experientes.


Logo percebeu que boa parte dos ingredientes com os quais estava acostumado simplesmente não existia ali.


Sem chicória.


Sem cheiro-verde.


Sem boa parte dos sabores amazônicos.


Era preciso improvisar.


Escolheu filé-mignon, coco fresco, vinho tinto, carambola e um cuscuz marroquino.


Enquanto preparava o prato, um concorrente tentava desconcentrá-lo dizendo repetidamente que sua carne ficaria dura.


Raunei apenas levantou a cabeça.


Sorriu.


E continuou cozinhando.


Mais tarde diria que aquele sorriso foi sua forma de não permitir que o nervosismo comandasse a prova.


O resultado surpreendeu.


Eliminou representantes de estados reconhecidos nacionalmente pela força de sua gastronomia, como Pará e Pernambuco, e confirmou que criatividade e equilíbrio podem ser tão importantes quanto qualquer técnica.


Às margens do Madeira


Hoje, Raunei Nascimento continua escrevendo sua história exatamente onde acredita que um chef deve estar.


Atrás do fogão.


É o chef do Restaurante Porto do Sol, às margens do Rio Madeira, em Porto Velho.


O cenário parece resumir sua trajetória.


É diante do rio que inspirou alguns de seus pratos mais conhecidos que ele continua valorizando peixes amazônicos, castanhas, mandioca, banana, tucupi e tantos outros ingredientes que ajudou a recolocar no centro da gastronomia regional.


Mas quem pensa que sua cozinha termina ali se engana.


Raunei também atua como personal chef.


É possível contratá-lo para preparar jantares exclusivos, encontros familiares, eventos corporativos ou celebrações particulares.


Mais do que cozinhar, ele cria experiências.


Muitos dos pratos desenvolvidos para concursos nacionais, mostras gastronômicas e festivais — receitas que não fazem parte do cardápio do Porto do Sol — podem ser preparados especialmente para esses encontros.


É uma forma de levar para dentro da casa das pessoas uma cozinha construída sobre memória, identidade e território.


Sua atuação, entretanto, vai além do restaurante e dos eventos privados.


Hoje, Raunei Nascimento é o representante em Rondônia da Abrachefs — Associação Brasileira de Chefs de Cozinha e Bartenders, entidade que reúne profissionais de todo o país e atua no fortalecimento da gastronomia brasileira, promovendo intercâmbio técnico, qualificação profissional e valorização da cozinha nacional.


A responsabilidade reforça uma missão que acompanha o chef desde o início da carreira: fazer com que a gastronomia rondoniense seja cada vez mais conhecida e respeitada.


Por isso, um de seus maiores sonhos é trazer para Porto Velho uma edição do concurso nacional promovido pela Abrachefs. Sediar o evento significaria apresentar aos chefs de todo o Brasil a riqueza dos ingredientes amazônicos, estimular o intercâmbio entre profissionais e consolidar a capital rondoniense como um importante destino da gastronomia brasileira.


É um sonho que resume sua própria trajetória.


Durante toda a carreira, Raunei nunca trabalhou apenas para construir um nome.


Trabalhou para abrir caminhos.


Muito além dos prêmios


É tentador resumir a carreira de Raunei Nascimento pelos concursos ou pelas três indicações ao Prêmio Nacional Dólmã.


Seria injusto.


Sua maior contribuição talvez não esteja em nenhuma dessas conquistas.


Está em algo muito maior.


Durante anos, Rondônia olhou para a própria cozinha sem perceber a riqueza que possuía.

Raunei ajudou a mudar esse olhar.


Mostrou que o tucupi pode ser tão sofisticado quanto qualquer molho clássico.


Que o pirarucu merece lugar entre os grandes ingredientes da gastronomia brasileira.


Que a mandioca, a banana, a castanha, a farinha e os peixes dos rios amazônicos não precisam ser apresentados como curiosidades regionais.


Eles bastam por si mesmos.


Talvez esse seja o maior legado de sua cozinha.


Não apenas servir bons pratos.


Mas fazer com que um Estado inteiro redescobrisse o orgulho da própria mesa.


Porque, no fim das contas, Raunei Nascimento nunca cozinhou apenas alimentos.


Cozinhou pertencimento.


E poucas receitas são tão difíceis, e tão importantes, quanto essa.

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